segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Bagdad Café

E então chegou um dia em que ela se conformou.
Ela não sabia bem como, não sabia bem quando foi, mal sabia o porque.
Ela não sabia se queria se conformar, afinal, nem pensou nisso.
Mas se conformou.

Em uma noite qualquer, aqueles anos passaram por sua cabeça. Ela se lembrou de tudo. Fechou os olhos e sentiu aquela esperança que carregou durante anos em seu peito, escorrer como grãos de areia por entre dedos.
Ela balbuciou meia dúzia de palavras em uma mesa de bar. Tomou um gole de cerveja. Aquele gosto amargo conhecia muito bem. Era o mesmo gosto amargo que há tantos anos habitava sua boca.

Emudeceu de pavor. Seus pequenos olhos cor de mel abriram-se como se estivesse no escuro, a procura de qualquer coisa que lhe parecesse familiar. Ela procurava desesperadamente aquela dor. A dor da esperança do algo que jamais chegaria. Ela sempre soube que não chegaria. Mas essa dor era a única coisa familiar que ela tinha.

Não encontrou. Olhou dentro de si e nada. Estava aterrorizada. Pensava se havia perdido o que tinha movido os últimos anos de sua vida. Como poderia viver sem a esperança do algo que jamais chegaria? Justo ela, que jamais havia pensado que poderia viver sem sentir aquela dor!

Não! Ela não entendia, não aceitava! Estava confusa, pensava que era um momento apenas. Logo encontraria novamente a tal esperança, afinal, poderia ela viver sem a tal? Poderia ela pensar em si como um ser único e merecedor de algo que não fosse a esperança surrada de tantos anos?

Olhou pro seu all star tão sujo e surrado quanto a tal. Percebeu que havia cuidado de sua vida como cuidava de seu tênis. Sua boca, já machucada com o peso dos anos, se entreabriu e sussurrou algum adjetivo sobre si mesma que jamais se saberá. Respirou. Precisava se acalmar. Estava sozinha.

Pensou em pensar nisso no dia seguinte, como tantas vezes a aconselharam. Mas as luzes amarelas que vinham em sua direção a atordoavam. E agora?! Era a única coisa que podia pensar.

Seu carro a levava pra lugar algum. Decidiu ir pra casa. Já não era mais seguro estar ali, perdida em seus pensamentos.

Foi. Dormiu. Sonhou. Não se lembrou de nada quando acordou. O momento que mais temia ao longo de tantos anos chegara. Ela se conformou. Justo ela que jamais se conformara com coisa alguma, justo ela que jamais desistira!

Sim. Já não havia mais o que fazer. O que para ela sempre fora impossível, havia finalmente acontecido.

Ela percebeu então, que a dor de perder aquela tal esperança, era muito maior do que a dor de esperar por algo que jamais chegaria.

Percebeu que, se não morrera naquele exato momento, não lhe restava nada, a não ser recomeçar.

T.L. - 21/09/09 - 23h36 - #Calling You - George Michael

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A garota no vazio

O que fazer com esse sofrimento atroz
Que dilacera teu peito
Vem de não sei onde
E vai pra lugar algum?

Chora todas as tuas lágrimas
Queima o teu peito em brasa
Veste a tua falsa amarra
E sorria com a tua cara pálida.

Bebe teu vinho barato
Acorda com teu rosto marcado
Respira como lhe foi mandado
E reconheça teu imenso estrago.

Norteia tua maldita farra
Limpa a tua boca amarga
Amanheça com teu corpo nu
E abra teus olhos que isso não és tu.

Arruma teus cabelos
Pinta tuas unhas de vermelho
Amanhã tu serás a mesma
A jovem mulher em solidão.

Se arrastando pelo eterno chão
Destruindo tudo de grão em grão
Sedenta em busca de uma mão
Odiando tudo totalmente em vão.

T.L. - quinta-feira - 20/08/2009 - 23h52

domingo, 9 de agosto de 2009

"Vc não é pessima. Eh uma excelente pessoa, excelente mulher, excelente filha... é inteligente, amiga, companheira, fiel.... vc é tudo. Tudo o que uma pessoa pode querer para compartilhar a vida... além de tudo é linda." Ufa. Já tava pensando em cortar os pulsos.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Apenas mais uma

Era uma vez uma menininha que nasceu em uma linda manhã ensolarada de domingo.
Essa menininha era única, era a mais esperada, a mais desejada, a que resolveria todas as frustrações de todas as pessoas ao seu redor.
Ela era tratada como uma pequena princesa, rodeada de amor, de carinho, vestiam-na de boneca, com lindos vestidos lilases e fitas de flores nos cabelos cacheados cor de mel. Porém essa pequena criança sempre fora demasiadamente assustada. Seus olhos eram pequeninos, brilhantes, curiosos, mas o medo a fazia paralisar. Ela não entendia porque se sentia tão diferente das outras crianças, ela sentia tudo ao seu redor, coisas que as outras sequer podiam saber, como de fato era para ser.
Tudo para ela eram sensações estranhas e distorcidas, tudo nela era profundo e nada fazia sentido.
Seu pai tentava de tudo para que ela sorrisse. Ela era risonha, era uma criança feliz. Quando ela chorava (e ela chorava muito, pois era exageradamente sensível aos estímulos exteriores) seu pai usava uma colher e um copo para pegar cada lagriminha que caia daqueles olhinhos cor de caramelo. Ele dizia que encheria o copinho na tentiva de fazê-la sorrir e ele conseguia, ela sempre sorria. Nunca ninguém a mandara engolir seu choro, ele era resolvido com uma tremenda sensibilidade que só existia ali.

Lá por sua segunda infância ela passou a sentir alguns estranhos estímulos ao seu redor, algo que escondiam dela e ela não entendia porque as coisas não podiam ser faladas. Ela observava, sempre atenta, assustada.
Um certo dia ela então descobriu o que era. Seu mundo caiu sobre seus ombros (o que ela descobriria muitos anos depois que ele jamais sairia de cima deles) mas ela se manteve firme. Não queria mais que seu pai pegasse suas lágrimas com a colher, ela queria pegar as dele. Mas não podia, era ainda tão frágil, tão menina. Isso a fez descobrir uma terrível sensação de impotência. Ela entendeu que o melhor era que ela se trancasse em seu mundo de fantasias e continuasse apenas observando e sentindo sozinha a sua imensa dor. Não queria ser mais um fardo na vida de quem a amava tanto e esperava tanto dela.
Os anos foram se passando e ela já não sabia mais como viver no mundo das pessoas. Ela tinha o seu próprio mundo em que ninguém podia tocar, invadir ou machucar. Ela passou a não sentir mais nada que vinha de lugar nenhum. Ela só queria estar de coração aberto para que mais ninguém do mundo real sentisse aquela dor sufocante dentro do peito. Ela queria pegar todas as lágrimas de todas as pessoas com a colher e guardar no copo para que todas elas sorrissem e se sentissem protegidas.
Ela tentou ser o que todos esperavam que ela fosse. Ela lutou. Lutou tanto que em um certo momento já não sabia mais qual era a batalha em que estava. Ela foi se perdendo de todos. De todos que tanto amava e que tanto a amavam. Ela perdeu, naquele momento, a pessoa que a fazia sorrir, a única pessoa que a fazia sentir-se segura na vida. Eles se deixaram e nunca mais se encontraram. Ela sentiu raiva, sentiu dor, perdeu o fôlego anos a fio. Sentiu-se completamente abandonada por ela mesma. A solidão havia chegado em seu mundo de fantasias e passou a ser sua eterna companhia. Era o nada. Era o vazio. Não era o que ela queria. Ela não sabia que seria assim. Ela apenas queria ser forte para que não se preocupassem com ela. Ela não sabia que naquele momento estava definindo o resto de sua vida.

TL - 17/07/2009

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Borboleta

Existem dias
Que me perco em meio a minha dor
Dor que não se sabe porque dói
Onde dói
Apenas dói
E dói tão intensamente
Que o coração não aguenta
Bate descompassado
Desesperado em sofrimento
Querendo fugir
Escapar de dentro do peito
Terminar de uma vez por todas
Com toda a sua eterna insatisfação
Virar uma borboleta
E voar sozinho para nunca mais voltar.

TL - 15/07/2009 - 15h

terça-feira, 16 de junho de 2009

The Greatest - Cat Power

Uma vez eu queria ser o melhor
Nem vento ou queda d'água poderia me deter
E, então, veio a agitação de uma enchente
E as estrelas da noite profundamente se pulverizaram

Eu me derreti
Dentro de uma grande e escura armadura
Sem deixar rastros de graça
Nem ao menos em sua honra
Me reduziu
Aos acusados do sul
Os fazendo lavar um espaço na cidade
Para o líder
E com a ralé na minha cama
Eu estive dormindo
Reduza-me
Me fixaram, me prenderam
Seguro no chão
Para o próximo desfile

Uma vez eu queria ser o melhor
Com dois punhos sólidos como pedra
Com cérebros que poderia explicar
Qualquer sentimento

Me reduziu
Me fixou
Seguro no chão
E com a ralé na minha cama
Eu estive dormindo
Para o próximo desfile

Uma vez eu queria ser o melhor
Nenhum vento ou cachoeira poderia me deter
E, então, veio a agitação de uma enchente
E as estrelas da noite profundamente se tornaram pó

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Só por hoje

O tormento de minha alma
As vezes me faz esquecer o sentido
Do caminho que percorro.

Dia após dia
Me esforço
Para viver uma vida normal, ser comum.

Condicionada e presa
Por valores que não acredito
Ações, posturas, obrigações
Que não me cabem
Torturam minha mente
Inquieta, errante, livre.

Metade do que sou hoje
É tudo o que eu nunca quis ser.

Os anos passam
E nos rendemos a condições indesejadas
As palavras são as mesmas
Mudando apenas de lugar.

Olho ao redor
Procurando algo com que eu me identifique
E nessas horas em que procuro
Nada encontro.

Aprendi a não procurar
Para evitar a decepção de não encontrar.

Essa rotina de falsos sorrisos
De palavras em vão
De batalhas sem sentido
Faz meu corpo se contorcer
De dor e tristeza

E só por hoje
Queria ser o que já fui
Só por hoje
Odeio o que sou
Amanhã já não sei.

Só por hoje
Eu queria a coragem de dez anos atrás
Só por hoje
Eu queria ter esperança

Só por hoje e talvez nunca mais.

TL - 01/08/08 - 17h15

sexta-feira, 6 de março de 2009

A vida como ela é

Não nasci para o amor.
Para alguns o amor é como a dor.
Sentimento triste, denso.
Triste como uma mariposa solitária
em uma tarde chuvosa de inverno.
Denso como a fumaça de enxofre queimado
que invade as narinas com ardor
mistura-se ao sangue
e invade os pulmões em uma ciranda sufocante.
Não nasci para o amor.
O amor é para mim
como um linfoma é para o corpo humano.
Instala-se discretamente
e com o passar do tempo
se apossa de cada célula
uma a uma
até que todas sejam dele.
Até que todo o oxigênio se acabe.

Não nasci para o amor.

TL - 26/01/09 - 14h30

quarta-feira, 4 de março de 2009

"Gosto dos venenos, os mais lentos.
As bebidas, as mais fortes.
Dos cafés mais amargos.
E os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
E daí?
Eu adoro voar!"

"E se me achar esquisita,
respeite também.
Até eu fui obrigada a me respeitar."

Clarice Lispector.

terça-feira, 3 de março de 2009

Virgínia

... é aquele tipo de sensação ambígua, de um lado o fio de esperança amarelada, desfacelando entre dedos nervosos e de outro, o desejo de tirar a dor, a racionalidade da certeza de que humano seria morrer sem horror.

E quem disse que o ser humano, em sua essência, não é ambíguo e horrível?

O que nos torna humanos, também nos faz desumanos. E os erros desumanos que cometemos nos tornam humanos!

Existir é complexo. Ninguém disse que seria fácil.

TL - 25/01/09 - 18h30