"Terá o dedo da morte de pousar de vez em quando no tumulto da vida para evitar que ele nos despedace? Tal será a nossa condição que devamos receber, diariamente, a morte, em pequenas doses, para podermos prosseguir na empresa da vida? E então, que estranhos poderes serão esses que penetram nossos mais secretos caminhos e mudam nossos mais preciosos bens, a despeito da nossa vontade?"
Orlando. Woolf, Virgínia. p.38
"Não direi: Que o silêncio me sufoca e amordaça. Calado estou, calado ficarei, Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam, Se represam, cisterna de águas mortas, Ácidas mágoas em limos transformadas, Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi: Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, Palavras que não digam quanto sei Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, Nem só animais bóiam, mortos, medos, Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi, Crispadamente recolhido e mudo, Que quem se cala quando me calei Não poderá morrer sem dizer tudo."
José Saramago
quinta-feira, 17 de junho de 2010
"Sossega, coração! Não desesperes! Talvez um dia, para além dos dias, Encontres o que queres porque o queres. Então, livre de falsas nostalgias, Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo! Pobre esperença a de existir somente! Como quem passa a mão pelo cabelo E em si mesmo se sente diferente, Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme! O sossego não quer razão nem causa. Quer só a noite plácida e enorme, A grande, universal, solente pausa Antes que tudo em tudo se transforme."
Um certo dia, ao acordar, ela percebeu que sua vida era como uma peça de teatro, em que diversos personagens já haviam passado.
Personagens que ela havia criado, sem nenhuma intenção.
Cada pessoa que passava pelo palco de sua vida era real, mas ela não havia aprendido a conviver com pessoas reais.
Para amá-las, ela precisava enxergar o que elas não tinham e apagar o que ela sabia que ia dispensá-las de seus papéis.
Com o passar do tempo, seus olhos deixavam de enxergar a essência de cada personagem e, cada vez que isso acontecia, ela sentia a dor de um tiro em seu peito.
Aquela pessoa não poderia mais estar na palco de sua vida, pois ela apenas conseguia enxergar um amontoado de ossos se movendo, de lá para cá, de cá para lá.
Após inúmeros tiros em seu peito, ela percebeu que precisava criar uma personagem tão fantasiosa, que ela jamais pudesse ver os ossos e que fizesse o papel principal de sua peça, eternamente.
E assim ela fez.
Essa “perfeita” personagem ficou durante anos no palco de sua vida. Ela passeava por seus olhos dia após dias, com toda a graça de sua juventude, com toda a beleza que poderia haver dentre todas as belezas que existem no infinito.
Porém, em um certo dia, tudo se desfez. (“porque o amor é a coisa mais triste quando se desfaz”). Como areia escorrendo por entre seus dedos, a personagem já não fazia sentido em sua peça.
Não porque ela havia enxergado seus ossos, mas porque, sem mais nem menos, sem querer, ela olhou para dentro de si e achou que tudo ao seu redor não passava de uma fantasia (“Deixa desilusão pra quem não sabe amar. E quem não sabe amar tem que sofrer. Porque não poderá compreender. Que o amor que morre é uma ilusão. E uma ilusão deve morrer”.)
Neste momento de extrema dor e lucidez, ela teve que apagar as luzes do palco, que era a única coisa que ela tinha em sua vida. Ou, pelo menos, o que ela mais prezava em sua vida.
Ela deu adeus à personagem mais perfeita e ilusória que já havia criado.
Ela sabia que jamais veria os ossos dessa personagem, mesmo tentando ver, ela não via! Como ela poderia ver?! Nem ela mesma podia entender.
Por mais que ela tentasse “matar” aquela personagem, ela não conseguia. (“Um verdadeiro amor nunca fenece e pouca gente ainda o conhece. Meu bem, se o teu amor morrer. É porque ninguém o entendeu”).
Mesmo sabendo que ela amava a personagem e não a pessoa real por trás da fantasia. (“Você não sabe amar, meu bem. Não sabe o que é o amor. Nunca sofreu, nunca viveu. Querer saber mais do que eu”).
Ela foi, então, obrigada a procurar pessoas reais para integrar sua vida real. E encontrou. (“Tá fazendo um ano e meio amor, que o nosso lar desmoronou. Meu sabiá, meu violão e uma cruel desilusão. Foi tudo o que ficou. Pra machucar meu coração”).
E, há algum tempo, aquela personagem que se foi junto com toda a sua fantasia, permanece intocada. Ela foi atuar em outros palcos, exatamente do jeito que ela foi criada, muito menos perfeita, muito mais perdida.
27/03 e 08/04/2010 T.L.
"Quem sabe, não foi bem melhor assim. Melhor prá você e melhor prá mim. O mundo é uma escola. Onde a gente precisa aprender. A ciência de viver prá não sofrer“. (João Gilberto)
Não precisa falar Nem saber de mim E até pra morrer Você tem que existir
Não precisa falar Nem saber de mim E até pra morrer Você tem que existir
Nasceram flores num canto de um quarto escuro Mas eu te juro, são flores de um longo inverno Nasceram flores num canto de um quarto escuro Mas eu te juro, são flores de um longo inverno
Isso é pra morrer 6 minutos Instantes acabam a eternidade Isso é pra viver Momentos únicos Bem junto na cama de um quarto de hotel
E você me falou de uma casa pequena Com uma varanda, chamando as crianças pra jantar
Isso é pra viver Momentos únicos Bem junto na cama de um quarto de hotel
D'um quarto de hotel Num quarto de hotel
Não precisa falar Nem saber de mim E até pra morrer Você tem que existir
Nasceram flores num canto de um quarto escuro Mas eu te juro, são flores de um longo inverno Nasceram flores num canto de um quarto escuro Mas eu te juro meu amor, são flores de um longo inverno
Isso é pra morrer
Você me falou E eu estava lá e falei
Isso é pra morrer 6 minutos Instantes acabam a eternidade Isso é pra viver Momentos únicos Bem junto na cama de um quarto de hotel
E você me falou de uma casa pequena Com uma varanda, chamando as crianças pra jantar
Isso é pra morrer 6 minutos Instantes acabam a eternidade Isso é pra viver Momentos únicos Bem junto na cama de um quarto de hotel
E você me falou Num quarto de hotel Num quarto de hotel
"Quando você chorou eu chorei Como se a dor fosse minha também Você quis parar e eu escutei e quando fugiu eu tentei entender Quando me pediu eu mudei, como me aceitava eu fiquei Não tava em teu mundo e por isso eu sofri Mas quando te procurei me perdi Por que foi que eu me perdi...? Aonde eu vivia você não E onde eu voava você era o chão Você caminhava era em meu coração Como não me escutava eu gritei Assim você ouviu a minha voz mas não entendeu a dor em mim Era tudo tão perfeito pra você que me achei errado e me calei Por que foi que eu me calei...? Por que nunca ouviste a tua voz? Por que se esconder tanto de você? Eu sei bem os erros que eu cometi Mas podia obrigar-te a me querer Nunca fui capaz de te dizer o porque e o quanto eu te amei Eu sei que me afastei de ti mas te afastaste de mim também Te afastaste de mim também Me lembro sempre do teu olhar O brilho fugido do meu Me prendendo na tua solidão me fez tão triste Mas pra sempre feliz Quis fazer de ti a minha salvação Mas me vi sozinho e acho que desisti Se quando você chorou eu chorei Eu vou saber que ao me achar eu te perdi"
Wilco - I Am Trying To Break Your Heart (Wilco sempre engole meu coração)
Depois dos 26, você passa a analisar o que deveria ou não ter feito, o que poderia ou não ter feito, o que deve ou não fazer e o que pode ou não fazer.
Você deixa de pensar o que você QUER, de fato, fazer.
É a fase de se reeditar. Dolorosa.
Então, nesse aniversário, eu vou pensar o que eu quero e não o que eu devo ou posso.
O meu desejo, cada vez mais forte, é o de pegar a estrada e viver livre das bolas de ferro que eu mesma criei.
Ter uma casa com uma horta no quintal, colher o alface pro almoço ou o manjericão pro espagueti ao pesto do jantar, sabe?
Criar periquitos livres, observar um João-de-Barro carregar gravetinhos para construir sua casa e ver gatos esparramados pelos sofás, dormindo como bebês.
Ouvir cigarras.
Sentar na grama e olhar um amontoado de estrelas. Quem sabe ver uma cadente e dar um nome a ela!
Sentir o cheiro da chuva chegando.
Olhar para o horizonte. E ver apenas um horizonte e mais absolutamente nada além dele.
Ah, como é lindo ver dois arco-íris, um ao lado do outro.
O som de uma tropa de cavalos correndo, me encanta.
Nossa maior prisão é a que construímos para nós mesmos e, há algum tempo eu criei uma perpétua, na qual tenho sobrevivido nos últimos anos.
Mas minha pena está no fim! Alguém me disse que ela está.
Afinal, eu ganhei alguns descontos por bom comportamento.
E depois dessas (poucas) primaveras, descobri que vivo mais feliz quando não planejo, quando não espero nada e quando não esperam nada de mim. Eu posso sonhar e realizar ao invés de planejar, não posso?
Mesmo levando esporro de terapeuta, algumas pessoas simplesmente são assim, oras.
Que assim seja, então, 2010 dos 28.
Livre de mim mesma, em paz e com olhos brilhantes, cheios de sonhos.
T.L. 12/01/2010 - 15h30
"I wonder why we listen to poets when nobody gives a fuck.
I want a good life with a nose for things. The fresh wind and bright sky to enjoy my suffering. A hole without a key if I break my tongue. Oh, speaking of tomorrow, how will it ever come?
All my lies are always wishes. I know I would die if I could come back new."
Perdida no silêncio solitário da noite As ruas vazias retratam minha solidão O apego desapegado Domina minha mente inquieta
O clima londrino permeia minha alma De dentro para fora A chuva é constante A dor, incessante
O tempo passa E tudo permanece exatamente igual Nada se constrói Tudo desmorona Dia após dia Como um amontoado de tijolos Sem a menor perspectiva de solidez
Ao redor apenas palavras e gestos hostis Lamúrias sem fim Sem eira nem beira A procura de uma vida feliz
Caminho sem saber para onde ir Aterrorizada e sem conseguir discernir Onde termina o bem e começa o mal Decido seguir.
E então chegou um dia em que ela se conformou. Ela não sabia bem como, não sabia bem quando foi, mal sabia o porque. Ela não sabia se queria se conformar, afinal, nem pensou nisso. Mas se conformou.
Em uma noite qualquer, aqueles anos passaram por sua cabeça. Ela se lembrou de tudo. Fechou os olhos e sentiu aquela esperança que carregou durante anos em seu peito, escorrer como grãos de areia por entre dedos. Ela balbuciou meia dúzia de palavras em uma mesa de bar. Tomou um gole de cerveja. Aquele gosto amargo conhecia muito bem. Era o mesmo gosto amargo que há tantos anos habitava sua boca.
Emudeceu de pavor. Seus pequenos olhos cor de mel abriram-se como se estivesse no escuro, a procura de qualquer coisa que lhe parecesse familiar. Ela procurava desesperadamente aquela dor. A dor da esperança do algo que jamais chegaria. Ela sempre soube que não chegaria. Mas essa dor era a única coisa familiar que ela tinha.
Não encontrou. Olhou dentro de si e nada. Estava aterrorizada. Pensava se havia perdido o que tinha movido os últimos anos de sua vida. Como poderia viver sem a esperança do algo que jamais chegaria? Justo ela, que jamais havia pensado que poderia viver sem sentir aquela dor!
Não! Ela não entendia, não aceitava! Estava confusa, pensava que era um momento apenas. Logo encontraria novamente a tal esperança, afinal, poderia ela viver sem a tal? Poderia ela pensar em si como um ser único e merecedor de algo que não fosse a esperança surrada de tantos anos?
Olhou pro seu all star tão sujo e surrado quanto a tal. Percebeu que havia cuidado de sua vida como cuidava de seu tênis. Sua boca, já machucada com o peso dos anos, se entreabriu e sussurrou algum adjetivo sobre si mesma que jamais se saberá. Respirou. Precisava se acalmar. Estava sozinha.
Pensou em pensar nisso no dia seguinte, como tantas vezes a aconselharam. Mas as luzes amarelas que vinham em sua direção a atordoavam. E agora?! Era a única coisa que podia pensar.
Seu carro a levava pra lugar algum. Decidiu ir pra casa. Já não era mais seguro estar ali, perdida em seus pensamentos.
Foi. Dormiu. Sonhou. Não se lembrou de nada quando acordou. O momento que mais temia ao longo de tantos anos chegara. Ela se conformou. Justo ela que jamais se conformara com coisa alguma, justo ela que jamais desistira!
Sim. Já não havia mais o que fazer. O que para ela sempre fora impossível, havia finalmente acontecido.
Ela percebeu então, que a dor de perder aquela tal esperança, era muito maior do que a dor de esperar por algo que jamais chegaria.
Percebeu que, se não morrera naquele exato momento, não lhe restava nada, a não ser recomeçar.
T.L. - 21/09/09 - 23h36 - #Calling You - George Michael