sexta-feira, 9 de abril de 2010

Desatando "nós"

Um certo dia, ao acordar, ela percebeu que sua vida era como uma peça de teatro, em que diversos personagens já haviam passado.

Personagens que ela havia criado, sem nenhuma intenção.

Cada pessoa que passava pelo palco de sua vida era real, mas ela não havia aprendido a conviver com pessoas reais.

Para amá-las, ela precisava enxergar o que elas não tinham e apagar o que ela sabia que ia dispensá-las de seus papéis.

Com o passar do tempo, seus olhos deixavam de enxergar a essência de cada personagem e, cada vez que isso acontecia, ela sentia a dor de um tiro em seu peito.

Aquela pessoa não poderia mais estar na palco de sua vida, pois ela apenas conseguia enxergar um amontoado de ossos se movendo, de lá para cá, de cá para lá.

Após inúmeros tiros em seu peito, ela percebeu que precisava criar uma personagem tão fantasiosa, que ela jamais pudesse ver os ossos e que fizesse o papel principal de sua peça, eternamente.

E assim ela fez.

Essa “perfeita” personagem ficou durante anos no palco de sua vida. Ela passeava por seus olhos dia após dias, com toda a graça de sua juventude, com toda a beleza que poderia haver dentre todas as belezas que existem no infinito.

Porém, em um certo dia, tudo se desfez. (“porque o amor é a coisa mais triste quando se desfaz”). Como areia escorrendo por entre seus dedos, a personagem já não fazia sentido em sua peça.

Não porque ela havia enxergado seus ossos, mas porque, sem mais nem menos, sem querer, ela olhou para dentro de si e achou que tudo ao seu redor não passava de uma fantasia (“Deixa desilusão pra quem não sabe amar. E quem não sabe amar tem que sofrer. Porque não poderá compreender. Que o amor que morre é uma ilusão. E uma ilusão deve morrer”.)

Neste momento de extrema dor e lucidez, ela teve que apagar as luzes do palco, que era a única coisa que ela tinha em sua vida. Ou, pelo menos, o que ela mais prezava em sua vida.

Ela deu adeus à personagem mais perfeita e ilusória que já havia criado.

Ela sabia que jamais veria os ossos dessa personagem, mesmo tentando ver, ela não via! Como ela poderia ver?! Nem ela mesma podia entender.

Por mais que ela tentasse “matar” aquela personagem, ela não conseguia. (“Um verdadeiro amor nunca fenece e pouca gente ainda o conhece. Meu bem, se o teu amor morrer. É porque ninguém o entendeu”).

Mesmo sabendo que ela amava a personagem e não a pessoa real por trás da fantasia. (“Você não sabe amar, meu bem. Não sabe o que é o amor. Nunca sofreu, nunca viveu. Querer saber mais do que eu”).

Ela foi, então, obrigada a procurar pessoas reais para integrar sua vida real. E encontrou. (“Tá fazendo um ano e meio amor, que o nosso lar desmoronou. Meu sabiá, meu violão e uma cruel desilusão. Foi tudo o que ficou. Pra machucar meu coração”).

E, há algum tempo, aquela personagem que se foi junto com toda a sua fantasia, permanece intocada. Ela foi atuar em outros palcos, exatamente do jeito que ela foi criada, muito menos perfeita, muito mais perdida.

27/03 e 08/04/2010
T.L.




"Quem sabe, não foi bem melhor assim.
Melhor prá você e melhor prá mim.
O mundo é uma escola.
Onde a gente precisa aprender.
A ciência de viver prá não sofrer“.
(João Gilberto)

Um comentário:

  1. Amo tudo o que escreve! Como sempre surpreendente!
    Amo vc!

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